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VEJA: COMO UM PROSELITISTA DO LIBERALISMO TENTA DEPRECIAR A EDUCAÇÃO! – Por Marcos Marcelo Barreto

VEJA: COMO UM PROSELITISTA DO LIBERALISMO TENTA DEPRECIAR A EDUCAÇÃO! – Por Marcos Marcelo Barreto

“O castigo é feito para melhorar aquele que castiga; esta frase representa o último recurso dos defensores do castigo”

(Nietzsche)

A revista Veja publicou um texto do Sr. Cláudio de Moura Castro, no qual o economista indaga: “Professor ganha mal?”. Pergunta que o senso comum já responderia sem titubear! Porém, o emérito leigo em Pedagogia e Educação Básica quer analisar a questão sob a ótica do seu prosélito liberalismo.

Questionar a remuneração dos profissionais da educação para comparar com os resultados obtidos é aceitável?

Se você respondeu sim, então vamos a outras indagações:

  • Poderiam economistas como o Sr. Cláudio, considerando sua titulação acadêmica e faixa salarial, não encontrar soluções para resolver os problemas econômicos e financeiros do país? A questão fica no ar… Mas, infelizmente, por interesses relacionados ao capital especulativo, alguns entre estes economistas forjaram uma crise financeira com o objetivo de tentar derrubar nossa jovem e frágil democracia!
  • Poderiam os profissionais da área de saúde ser responsabilizados pelo fato da população brasileira não ter acesso ao atendimento médico adequado? Ou, seria aceitável que crianças de baixa renda ainda morram por doenças para as quais há prevenção e tratamento? Ou, pelo fato de nossa sociedade se encontrar sem medicamentos e sem perspectiva de cura para doenças já conhecidas há décadas como AIDS e diversos tipos de câncer?

Estas indagações são necessárias para se verificar que qualquer situação- problema está imbricada com outras questões que ultrapassam as fronteiras de uma única área do conhecimento humano, fato que esperávamos que fosse conhecido deste senhor, dado a titulação acadêmica que lhe é atribuída…

Mas, é interessante observar que o Sr. Castro não se utiliza de sua coluna quinzenal para contribuir ou produzir “resultados para a sociedade” relacionados à sua área de formação/titulação, contudo, tenta “analisar” uma área em que não atua: a EDUCAÇÃO BÁSICA e, o que é mais grave, se autoproclamando “especialista em educação”.

Sr. Castro, V.S.ª tem habilitação ou licenciatura para atuar no Ensino Fundamental? De preferência na Educação Infantil ou nos Anos Iniciais? Se não tem, qual o fundamento do título de “especialista em educação”, ou para criticar resultados desta área profissional? Sendo o senhor “economista” (tenho cá minhas dúvidas de como obteve este diploma…) não seria mais inteligente de sua parte se ater ao objeto de estudo o qual a sociedade lhe outorgou titulação? Entretanto, até onde se percebe, o desenvolvimento econômico do país vem sofrendo duras influências de fatores que, segundo seus pares, muitos seriam de origem exógena à economia nacional. Qual a seu parecer sobre esta situação? Pois, se sem ter titulação na área pedagógica, se arvora a assinar publicações sobre educação, supomos que em Economia deveria fornecer respostas eficazes para os problemas que são conhecidos!

Bem… Em vista desta preleção inicial, podemos inferir após a leitura do texto “Professor ganha mal?” publicado na Revista VEJA, que o único objetivo seria fazer proselitismo contra a educação e contra professores!  Este texto busca desqualificar e desvalorizar a educação e os educadores brasileiros, em resumo faz um desfavor ao Brasil, e seu autor perdeu uma ótima oportunidade de ficar em silêncio, omitindo assim seu desconhecimento sobre o objeto da Educação Básica: o processo de ensino e aprendizagem e a formação do sujeito para a vida em sociedade, que é o grande desafio da sociedade contemporânea.

Este proselitista convicto do liberalismo ataca as conquistas trabalhistas do professor, tentar criar um factoide e pregar a retirada de direitos para os educadores brasileiros, tudo próprio da cartilha de exploração pregada pelo capitalismo. Naturalmente, faltou no texto a declaração que fica clara em suas entrelinhas:

-NÓS, PROSELITISTAS DO LIBERALISMO, QUEREMOS QUE A EDUCAÇÃO SEJA PRIVATIZADA! Afinal, é a pasta de maior orçamento do poder público, precisamos entregar aos empresários, elitizar e dificultar ainda mais o acesso à educação pela classe trabalhadora!

Enfim, porque alguém desejaria desvalorizar a profissão docente? Por que, no entendimento deles, estudantes das classes populares não necessitariam de profissionais competentes, atraídos para a carreira docente por esta lhes oferecer alguma valorização além de tapinhas nas costas e homenagens dos alunos ao final do curso?

A legislação prevê situações sobre a carreira docente pela sua singularidade. O professor precisa de atualização de conhecimentos, logo, de aperfeiçoamento e  formação continuada, por isso a licença aprimoramento. Ao mesmo tempo, as férias de 45 dias e licenças prêmio são incentivos à carreira, mas o senhor Castro não citou o alto índice de doenças ocupacionais que acomete esta categoria, como exemplos a síndrome de Burnout e a depressão, além de outras relacionadas ao aparelho fonador.

Cabe ainda salientar que, alguém precisa informar para este leigo em Ensino Fundamental, apesar de graduado, que a educação é um processo de formação que sofre influências de naturezas diversas, desde a família e a religião, até as condições sociais e econômicas, passando pela mídia e redes sociais, entre muitos outros elementos e atores. Normalmente, o trabalho do professor é “sabotado” por diversos fatores: veículos de mídia que promovem desinformação (como o que publicou este atestado de ignorância pedagógica); condições sociais e econômicas adversas para a maioria absoluta de sua clientela na rede pública de ensino; violência e criminalidade, entre outras de uma lista quase interminável.

Ainda assim, o professor insiste no desafio de desenvolver o processo aprendizagem para o aluno, mas ações como o texto do senhor Castro se encarregam de promover ou justificar:

  • Desvalorização e preconceito sobre a profissão docente;
  • Ampliação de desigualdades sociais, que geram bolsões de miséria e violência;
  • Manutenção das politicas de concentração de renda em favor de banqueiros e do capital especulativo, o que aumenta as desigualdades sociais, o que geram mais miséria e violência, perpetuando a espiral crescente de mais desigualdade.
  • Tentativa de, mais uma vez, depositar na conta do trabalhador o custo do fracasso de políticas econômicas, tomando por análise a educação!?

O trabalho do professor,  sobretudo na Educação Básica, precisa ser reconhecido e valorizado. Pode e deve ser analisado, mas considerando-se que os resultados obtidos não dependem exclusivamente da docência, assim como os resultados da saúde não dependem apenas dos médicos ou de como eles são remunerados! Contudo, um plano de carreira e vantagens próprias de cada profissional torna-se um fator de motivação para que determinados setores da sociedade se desenvolvam e aperfeiçoem.

Educação e Economia

 Há uma relação direta entre condição econômica e desempenho escolar, como se pode verificar neste quadro abaixo. Quanto menor a renda per capita, menor o grau de escolaridade, verifiquemos numa exposição simplificada:

 

 

E.F. = Ensino Fundamental

E.M. = Ensino Médio

E.S. = Ensino Superior

Escolaridade da população de 18 a 24 anos.
 Segundo a renda domiciliar per capita
 Brasil 2003
Salário Mínimo
Até  1/2 de 1/2 a 1 de 1 a 2 2 a 5 mais que 5
ESCOLARIDADE
Não concluiu o E.F. 60% 36% 20% 7% 3%
Concluiu o E.F., mas não E.M. 26% 32% 28% 17% 9%
Concluiu o E.M., mas não E.S. 13% 28% 40% 38% 18%
Acesso ao E.S. 1% 4% 12% 38% 71%
6.737.444 5.941.990 5.467.768 3.272.593 982.574

Também, podemos inferir que, se considerarmos os resultados da educação por faixa de renda per capita, por família de aluno, os indicadores mostrariam que para os filhos da população que está dentro do segmento do grupo de 1% (um por cento) mais ricos do país, certamente, o índice de sucesso dos professores é proporcional ao fato deste grupo deter 27% da riqueza brasileira!

Segundo dados do Relatório de Distribuição de Renda no Brasil[1]: “apenas 8,4% dos declarantes, aqueles que ganham acima de 20 salários mínimos, concentram 46,4% da renda bruta total do país e 59,4% dos bens e direitos líquidos”. Será que estes dados tem impacto no desempenho escolar desta faixa da população? Seja para o aluno, seja para o desempenho do professor que o recebe sob sua tutela?

Senhor Castro, se realmente deseja melhorar os resultados da Educação no Brasil, devemos começar a levar a sério ações para promover a diminuição das desigualdades sociais e econômicas, tais como:

  1. Taxação de grandes fortunas;
  2. Taxação sobre os lucros dos bancos;
  3. Ampliação dos programas de acesso à educação superior para classes populares;
  4. Programas de emprego e redistribuição de renda;
  5. Cobrança rigorosa sobre os grandes sonegadores e devedores de impostos;
  6. Execução das metas previstas no Plano Nacional de Educação
  7. Combater e reverter propostas do governo interino do Temer que tem por objetivo desvincular investimentos em Educação e Saúde, extinção de programas educacionais como PRONATEC, PROUNI, Ciências sem Fronteiras, e pasmem! Revogação da Lei do Piso Nacional Salarial para Professores da Educação Básica

Quando conseguirmos assegurar políticas públicas de geração de emprego e renda, diminuindo as desigualdades sociais e econômicas, permitindo o acesso aos serviços essenciais de modo igualitário, assim como aos serviços e bens de consumo de modo sustentável, poderemos discutir com fundamentos coerentes os rumos da educação brasileira, assim como os critérios para remuneração de professores no mesmo padrão de outras profissões de nível superior.

Até lá, sugerimos que faça um estágio de dois anos (como seu texto afirma ser suficiente) em uma sala do Ensino Fundamental de qualquer escola pública da periferia de qualquer cidade brasileira e, se o senhor conseguir alfabetizar um grupo de crianças que vivem sob o peso das desigualdades sociais e se sobreviver às condições de trabalho a que estão submetidos estes profissionais que representam a base de qualquer sociedade civilizada, então estará apto a participar de discussões sobre este tema em que, francamente, o senhor revelou-se apenas um proselitista do liberalismo.

[1]Disponivel em:  http://www.fazenda.gov.br/noticias/2016/maio/200bspe-divulga-relatorio-sobre-a-distribuicao-da-renda-no-brasil, acesso em 29/07/2016.